Muitas pessoas pensam que montar um cabo é um bicho-de-sete-cabeças. Na verdade, os únicos requisitos essenciais para isso são uma boa habilidade manual e atenção. A primeira, embora seja uma característica peculiar de algumas pessoas (uma espécie de "dom"), pode ser desenvolvida e aprimorada desde que se conheçam algumas técnicas (e macetes). A segunda, não é necessária somente para se montar cabos, pois é essencial em qualquer atividade.
Mesmo que o músico não queira se dedicar à atividade de "montagem de cabo" (a maioria pensa que isso é coisa para técnicos de eletrônica), em algumas situações, saber soldar um cabo pode evitar muitos problemas (No meio da madrugada, para encerrar uma gravação, o músico precisa de mais um cabo, ele tem um, mas o plug está solto... e aí?).
Tipos de cabos mais usados
Para as aplicações musicais básicas - aqui incluídos os instrumentos musicais, microfones, portastudios e conexões com sequenciadores e computadores, e excluídos os sistemas sofisticados de estúdios e palcos - a diversificação de cabos e plugs não é muito grande. São dois os tipos de cabos mais empregados na maioria das ligações:
cabo blindado mono: é constituído por um condutor interno (feito com vários fios finos) encapado por isolante e envolto por uma blindagem (pode ser uma malha entrelaçada ou uma trança ao seu redor), tudo isso encapado por um outro isolante (Fig. 1.a);
cabo blindado stereo: é constituído por dois condutores internos (cada qual feito com vários fios finos) encapados separadamente por isolantes, e envoltos por uma blindagem (também pode ser uma malha entrelaçada ou uma trança), tudo encapado por outro isolante (Fig. 1.b);
A blindagem feita pelos fios do condutor entrelaçado oferece proteção às interferências eletromagnéticas externas, que podem introduzir ruído sobre o sinal que está sendo transmitido.
O cabo mono é usado para transmitir os sinais de áudio de guitarras, instrumentos eletrônicos e microfones (não balanceados) aos mixers e amplificadores, transmitir sinais de sync (FSK, SMPTE, Tape Sync) entre gravadores e sequenciadores, e até mesmo em pedais de sustain e de controle. O cabo stereo, por sua vez, é usado em linhas balanceadas de áudio (usadas quando o percurso é longo, para evitar que diferenças de potencial de terra, introduzam ruído), e em cabos MIDI. Cabe ressaltar que a maioria dos instrumentos que possuem saída de áudio em stereo usam duas saídas para cabos mono, e não uma única saída para cabo stereo (já a saída de fones, no entanto, usa cabo stereo).

Os plugs têm uma variedade um pouco maior do que os cabos, sendo que felizmente há uma certa padronização para determinadas aplicações, o que ajuda bastante quando se adquire equipamentos novos, que têm de ser conectados ao que já existe no sistema:
Deve-se procurar usar sempre os materiais mais resistentes, principalmente quando se tratar de instalações sujeitas a mudanças frequentes, como o uso no palco. Os jacks, por exemplo, podem ter capa de plástico ou de metal, sendo esta última melhor (e mais cara). Alguns plugs possuem uma luva que protege o cabo ao entrar no plug, evitando que ele seja dobrado ou forçado (nos jacks de capa metálica, essa luva é feita com uma mola flexível).

Cuidados e precauções
Use sempre o cabo adequado à cada aplicação. Improvisar soluções, ainda que em situações de emergência, acaba comprometendo o resultado final de todo o trabalho. Comparado com os demais componentes de um sistema musical, o cabo é uma peça extremamente barata, e por isso economizar nele não parece ser uma atitude racional. O ideal é ter-se sempre um cabo reserva de cada espécie, para uma eventual necessidade.
O manuseio dos cabos também deve ser de forma adequada, para que a sua durabilidade seja maior. Nunca se deve retirar uma conexão de um equipamento puxando pelo cabo, mas sim pelo corpo do plug, que é feito para isso. O ato de puxar o cabo submete-o a um esforço para o qual não foi projetado, o que pode acarretar em rompimento dos condutores internos, ou então - o que é mais provável - rompimento da solda do cabo no plug.
Na ocasião do projeto das instalações dos equipamentos, é importante considerar alguns aspectos que podem ser úteis. O primeiro seria o dimensionamento correto de todos cabos, evitando usar cabos curtos demais (que vão ficar esticados, e se transformarão em fonte de problemas, como ruptura ou danificação dos plugs), ou longos demais (que "embolarão", dificultando sua movimentação futura). É de grande utilidade etiquetar as extremidades dos cabos, o que facilita sobremaneira na manipulação das conexões. Os cabos também devem sempre ficar livres (soltos) sem pesos em cima, ou qualquer outra coisa que possa dificultar seu movimento, quando necessário.
Uma outra prática que pode não só aumentar a vida útil, mas também facilitar o manuseio é enrolar-se sempre os cabos no mesmo sentido. Na maioria das vezes, os cabos vêm enrolados em forma circular, e por isso, seu material já está "acomodado" àquele formato. Usar um outro formato de enrolamento acaba forçando os condutores e respectivas camadas isolantes, fazendo o conjunto todo perder coesão, ou deformar-se. Deve-se sempre enrolar o cabo no formato e sentido de enrolamento "natural" que ele já tem. Isso, além das vantagens em relação à durabilidade, acaba também tornando o enrolamento mais fácil. Deve-se evitar também enrolar os cabos em círculos de raio muito pequenos, pois força mais o cabo.
Há um tipo de cabo, chamado de espiralado, que tem a aparência de um cabo de telefone. Este cabo é mais indicado para guitarristas e baixistas, que precisam de mobilidade e não desejam um "rabo" de cabo espalhado pelo chão, pois o cabo espiralado contrai-se e expande-se à medida que é aforuxado ou esticado com o movimento do músico. A desvantagem do cabo espiralado é o peso que ele provoca sobre o músico (que incide mais sobre o plug) pois, como o cabo não fica largado no chão, mas sim pendurado, a massa total acaba sendo carregada pelo músico. Esse tipo de cabo não é recomendável para uso em instalações fixas de estúdios e palcos, pois suas espiras acabam se prendendo nos outros cabos ou obstáculos, dificultando muito o manuseio nas instalações.
Faça você mesmo
Para quem quer aprender a consertar ou montar seus cabos, aqui vão algumas dicas e técnicas na "arte" de soldar cabos e plugs. Para isso, é necessário ter-se algumas ferramentas básicas, como um ferro-de-soldar (para eletrônica), um sugador de solda (não é essencial, mas ajuda bastante), um alicate de bico fino, um alicate de corte (ou tesoura) e, obviamente, um rolo de solda. Todas essas ferramentas são facilmente encontradas nas boas lojas de material eletrônico, e os preços variam conforme a qualidade do produto.
Uma regra básica para qualquer montagem eletrônica - e isso inclui a montagem de cabos - é que um serviço mal feito acaba tendo que ser refeito. Deve-se sempre ter em mente que um trabalho "matado" hoje provavelmente vai ser um problema (ou um desastre) no futuro. Portanto, atenção e primor são essenciais para um resultado perfeito.
Quando for consertar um cabo, preste atenção no defeito que ele apresenta. As falhas mais frequentes são por causa de interrupção de condução, que pode ser causada por uma solda solta do condutor no plug ou mesmo pelo rompimento de um condutor. Se o problema é a solda, a solução é simples, e veremos como fazê-la, mais adiante. Se aparentemente não há qualquer solda solta, verifique se algum condutor está encostando no outro. Às vezes um dos pequenos fios de um dos condutores está tocando o outro, provocando um curto-circuito entre eles. Se for isso, ou corte devidamente o "fiozinho rebelde", ou refaça a solda do condutor, juntando bem todos os fios dele antes de soldar.
Se nenhuma das evidências citadas for detectada, então o problema pode ser a ruptura interna de condutor, em algum ponto ao longo do cabo. A solução para esse problema é ir cortando pedaços (digamos, de cerca de 3 cm) de cada extremidade do cabo, alternadamente, até voltar a haver condução. Calombos, dobras pronunciadas ou falhas sensíveis (ou visíveis) no encapamento externo são pontos suspeitos: flexione e entorte o cabo seguidamente, em diversos pontos ao longo do seu comprimento, verificando se a condução é restaurada quando se mexe em algum trecho. Se isso ocorrer, provavelmente a ruptura está naquela região.
Para se testar a condução no cabo, pode-se usar um multímetro eletrônico, usando-se a função de teste de resistência (ohms) e aplicando-se as pontas de teste em cada extremidade do condutor, que deverá acusar resistência igual zero. Há multímetros com funções específicas para testar condução, indicando com sinal sonoro. Um dispositivo rudimentar para se testar a integridade dos condutores de um cabo é sugerido na Figura 3. (Ao testar o cabo, deve-se prestar atenção se as extremidades testadas são do mesmo condutor !).

Caso você decida consertar ou montar seus cabos, então aqui vão alguns lembretes e dicas importantes:
Técnicas básicas de soldagem
Para se obter uma soldagem bem feita, é importante observar alguns requisitos, que podem evitar futuras dores-de-cabeça.