MIDI: duas décadas de (r)evolução
Miguel Ratton
Há 20 anos atrás, o mundo da música contemporânea iniciava uma transformação sem precedentes, que iria modificar para sempre os processos de composição, arranjo e execução musical.
Quem tem menos de 25 anos, talvez não se impressione tanto com a quantidade e a qualidade da tecnologia disponível atualmente para se trabalhar com música, mas aqueles, como eu, que já têm cabelos brancos - e os que já não têm muitos cabelos - sempre ficam impressionados quando se lembram de como as coisas mudaram tanto na música nessas últimas duas ou três décadas.
Ter um “home-studio”, uma coisa tão comum hoje para músicos e compositores, era privilégio de alguns poucos artistas abonados, que podiam dispor de centenas de milhares de dólares para comprar seus próprios equipamentos.
A criatividade e o talento sempre serão um requisito para um trabalho artístico de qualidade, mas hoje, graças à variedade de recursos disponíveis, o processo de composição pode ser bem mais rápido e os resultados podem ser avaliados imediatamente.
Provavelmente a maioria das pessoas não se dá conta de que quase toda a música que se ouve hoje em dia foi feita com o auxílio de MIDI. Grande parte dos arranjos usam teclados e samplers - reais ou virtuais - que são controlados por seqüenciadores, por meio de comandos MIDI. Nos estúdios profissionais, quase sempre a operação dos equipamentos é automatizada - usando MIDI. Em toda parte podemos ter MIDI: games, sistemas de iluminação de espetáculos, músicas na Internet, parques temáticos, e até mesmo em telefones celulares. É um mercado que movimenta cerca de 1,5 bilhão de dólares por ano em todo o mundo, e que tende a aumentar ainda mais.
Entendendo o básico
MIDI é a sigla de Musical Instrument Digital Interface, e é um sistema de transmissão digital de informações voltado para aplicações musicais (embora muitas aplicações não-musicais também o utilizem). Em linhas gerais, funciona assim: ao se tocar uma nota num teclado eletrônico, este detecta qual a tecla que foi pressionada, codifica essa informação num pacote de três bytes e os envia pela saída MIDI Out do teclado; se esta saída estiver conectada à entrada MIDI In de um outro teclado, então este último poderá tocar a mesma nota musical executada no primeiro. Além da execução de notas musicais, muitas outras informações podem ser transmitidas através do cabo MIDI, como o acionamento de pedais, a troca de timbres, os ajustes de parâmetros no painel, etc.
Além de permitir a interconexão de instrumentos musicais eletrônicos, o MIDI tornou realidade a automação musical pelo computador, através do uso de seqüenciadores e inúmeros outros aplicativos de controle. O seqüenciador é um software que registra cronologicamente inúmeros comandos de execução musical (e também outros que não são de execução musical), que podem ser transmitidos a diversos instrumentos musicais e outros tipos de equipamentos, possibilitando assim a uma única pessoa produzir e executar trabalhos musicais de grande complexidade. Esse foi um dos aspectos mais revolucionários do MIDI. Mesmo um compositor ou músico erudito pode tirar grande proveito do uso do controle MIDI, pois ao escrever no computador uma partitura para vários instrumentos pode avaliar seu arranjo imediatamente, usando um sintetizador com timbres de instrumentos acústicos. Pode ainda imprimir a partitura, extraindo facilmente as seções de cada instrumentista. Isso significa aumento de eficiência e redução de custo.
O cabo que é usado na conexão MIDI é o mesmo cabo de áudio usado em microfones, com dois condutores e uma malha de blindagem; o plug da conexão MIDI é o “velho” plug DIN de cinco pinos (também conhecido como plug Philips). Ou seja, tudo muito simples e barato.
A transmissão dos bytes de informação é feita de forma serial, a uma velocidade de 31.250 bits/seg. Embora seja uma taxa de transmissão muito lenta para os padrões atuais (USB = 1 megabits/seg; FireWire = 400 megabits/seg), tem se mostrado suficientemente adequada para suas aplicações, graças às inúmeras estratégias de implementação, como o uso de múltiplas portas MIDI.
O sucesso do MIDI aconteceu principalmente pelo fato dele ser um padrão aberto e de domínio público, em que nenhum fabricante é obrigado a pagar royalty para adotá-lo em seus produtos. Para coordenar a divulgação da especificação técnica e regulamentar as novas implementações, foi criada originalmente a International MIDI Association (IMA), posteriormente absorvida pela MIDI Manufacturers Association (MMA), uma instituição internacional localizada nos EUA que congrega fabricantes, desenvolvedores e demais pessoas e entidades interessadas no assunto.
A História
A idéia de se comandar um teclado a partir de outro era antiga, e para isso muitos sintetizadores analógicos possuíam conexão do tipo “control voltage” (CV), pela qual um cabo passava sinais de tensão de um teclado para outro. Por ser analógico, esse processo nem sempre garantia precisão da afinação da nota, e além disso, só permitia a execução de uma nota de cada vez (enquanto os sintetizadores eram monofônicos, isso não chegava a ser um problema). No início da década de 1980, a maioria dos sintetizadores ainda usava circuitos analógicos para a geração dos sons, mas muitos já eram polifônicos e continham microprocessadores para gerenciamento do acionamento das teclas, o controle das vozes, o armazenamento de programação do painel e algumas outras funções.
Com a popularização cada vez maior da tecnologia digital e a implementação crescente de transmissão de dados em outros segmentos da indústria, naturalmente surgiu a idéia de se ter um processo digital para comunicação entre instrumentos musicais.
Na convenção da AES de 1981, Dave Smith, na época um dos proprietários da fábrica de sintetizadores Sequential Circuits, apresentou uma proposta para intercomunicação digital de instrumentos musicais, a qual chamou de USI (Universal Synthesizer Interface), e que foi a base para a especificação do MIDI. Após várias reuniões e discussões técnicas entre os principais fabricantes norte-americanos e japoneses, finalmente em 1982 surgia o Prophet-600, da Sequential, o primeiro sintetizador equipado com MIDI. No NAMM Show de janeiro de 1983, o público pôde finalmente testemunhar a primeira conexão MIDI entre dois equipamentos de fabricantes diferentes: um Prophet-600 e um Roland Jupiter-6. Naquele mesmo ano, foram fundadas a International MIDI Association e a MIDI Manufacturers Association, e foi lançado o legendário Yamaha DX7, também equipado com MIDI.
Pouco tempo depois surgiram os computadores Atari, já equipados com MIDI, e em 1985 a Roland colocou no mercado a interface MPU-401, para computadores PC e Apple, que se tornou um padrão de interface MIDI durante mais de uma década. De lá para cá, milhares de softwares foram lançados, oferecendo a quem trabalha com música recursos até então inimagináveis.
Presente e futuro
Até hoje, a sigla MIDI é associada à alta tecnologia musical. Mais do que simplesmente permitir a conexão entre dois equipamentos musicais, o MIDI é um conjunto de recursos que tornaram o processo musical muito mais fácil, mais rápido e mais eficiente.
Dentro desse enfoque, temos o interfaceamento e os comandos de comunicação (MIDI Specification 1.0), os formatos de armazenamento de música seqüenciada (Standard MIDI Files), os padrões de compatibilização de instrumentos (General MIDI), a automação da operação de equipamentos de estúdio (MIDI Machine Control), a automação de equipamentos de iluminação e efeitos visuais de espetáculos (MIDI Show Control), o armazenamento de timbres sampleados (Donloadable Sounds), e outras aplicações.
A mais nova implementação do MIDI está sendo feita nos telefones celulares. Para se poder tocar música seqüenciada em dispositivos com extremas limitações de recursos, está em fase final de homolagação na MMA a especificação “Scalable Polyphony MIDI”, que permite adequar a execução de uma seqüência MIDI em telefones celulares dotados de geradores de som com polifonia de apneas 8 notas, sem perder o conteúdo principal da música, através de definições prévias de notas prioritárias. Vamos esperar para ver, ou melhor, ouvir.
Este texto foi publicado na revista Música & Tecnologia em 2003
Este texto foi publicado no music-center.com.br em agosto de 2005
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