mLAN - rede local para equipamentos musicais

por Miguel Ratton
(palestra apresentada no VIII Congresso da AES Brasil - 2004)


Quem trabalha com áudio sempre sonha com o dia em que aquela "fiarada" toda possa ser reduzida a um único cabo, e que todos os problemas de interferência, mau contato e facilidade de roteamento também possam ser solucionados.

Pois esse sonho pode se tornar realidade em pouco tempo: já está disponível uma nova tecnologia para transferência de áudio digital e MIDI - em tempo-real e por um único cabo - e com ela provavelmente virão inúmeros produtos, com soluções para as diversas aplicações de áudio que encontramos na atualidade.

O barateamento gradual da tecnologia permitiu a ampliação da capacidade dos estúdios de tal forma que hoje, mesmo com um investimento relativamente pequeno, é possível ter em casa um estúdio de gravação digital com 16 ou mais canais simultâneos. Por outro lado, a proliferação de teclados, sintetizadores, periféricos e processadores de efeitos a preços acessíveis, faz com que a interconexão de tantos equipamentos seja um grande emaranhado de cabos, mesmo em estúdios de pequeno porte.

Apesar da forte tendência da "virtualização" de equipamentos, que permite que o processo de síntese de sons, gravação e processamento seja efetuado dentro do computador, sempre há a necessidade de se interligar equipamentos externos ao computador, uma vez que a capacidade de processamento dele é limitada. E como a maioria desses equipamentos também opera no domínio digital, seria lógico que o áudio fosse transferido de um para outro sempre no formato digital. É claro que isso pode ser feito através de conexões S/PDIF ou ADAT óptico, disponíveis na maioria dos equipamentos profissionais, o que já reduz significativamente a quantidade de cabos, mas esses tipos de conexão também têm limitações quanto à capacidade de transferência (2 canais no S/PDIF; 8 canais no ADAT óptico), e a transferência só é possível entre dois equipamentos.

Depois da revolução que vimos nas últimas duas décadas, com o advento do MIDI e a digitalização completa do áudio, o que precisava surgir era um processo que permitisse a transferência, em tempo-real, dos vários tipos de informações musicais que ocorrem dentro de um estúdio (MIDI, áudio, sincronismo, vídeo, comandos, etc). A resposta da indústria musical para isso é uma nova tecnologia, chamada "Music LAN", que é um padrão de rede digital para aplicações musicais, e que provavelmente vai mudar bastante a estrutura dos estúdios daqui para a frente.

O termo LAN ("Local Area Network") é usado para designar genericamente uma "rede" de interligação de computadores (e/ou outros equipamentos digitais), onde as informações (dados) podem ser transferidas livremente de um para qualquer outro componente da rede. Hoje, em qualquer empresa de pequeno porte - e até mesmo em residências - há computadores ligados em rede, usando um simples cabo que passa por todos eles. Através de uma rede comum, um computador pode acessar arquivos que estão no disco de outro computador, tão rapidamente como se estivesse acessando seu próprio disco.

Numa rede para aplicações musicais em tempo-real, onde as informações transferidas são dados de áudio digital, comandos MIDI, etc, é preciso não só que a taxa de transferência seja alta, mas sobretudo que haja garantia de que os dados enviados por um componente da rede cheguem ao seu destino dentro do tempo requerido, de forma a evitar "engasgos" no áudio. Por isso uma LAN comum não serve para aplicações de áudio em tempo-real.

Veremos na segunda parte desta matéria os detalhes da solução desenvolvida para atender à necessidade de alto desempenho nas redes para aplicações musicais, mas antes vamos apresentar a base tecnológica que dá suporte à essa solução, que é o padrão FireWire. A abordagem técnica é inevitável nesse caso, e talvez o assunto possa parecer um pouco complicado para músicos e operadores de estúdio em geral (assim como provavelmente foi o primeiro contato com o MIDI, por exemplo). Mas o mais importante é perceber o quanto essa tecnologia poderá modificar - para melhor - o trabalho realizado dentro de um estúdio musical. Só a título de ilustração: uma rede para aplicações musicais desse tipo tem capacidade suficiente para manipular, através de um único cabo, cerca de 100 canais de áudio digital com qualidade de CD e mais 256 cabos de MIDI. Vale a pena entender o assunto, não é?


Tudo começou com a maçã

No final da década de 1980, a Apple Computer (fabricante dos computadores Macintosh), estava envolvida com o desenvolvimento de um padrão de transferência de dados em alta velocidade que pudesse substituir o padrão SCSI, que na visão da empresa logo chegaria ao seu limite. A transferência de dados no padrão SCSI ocorre de forma paralela, com um fio para cada bit do dado, e embora todos os bits do dado sejam enviados ao mesmo tempo, à medida que se aumenta muito a velocidade de transmissão, há uma distorção dos sinais nos fios, o que prejudica a sincronização da chegada do dado por inteiro. Por isso, as pesquisas da Apple foram direcionadas para um sistema de transmissão serial em alta velocidade, batizado de "FireWire", onde um cabo especial e um protocolo adequado garantem a eficiência da transferência.

Tendo em mente uma grande abrangência de mercado, no início da década de 1990 a Apple abriu esse seu padrão para uso por outras empresas, e ele foi padronizado oficialmente junto ao Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), quando então recebeu a sigla IEEE-1394. Paralelamente, foi criada a "1394 Trade Association", da qual fazem parte, além da própria Apple, mais de uma centena de empresas como Sony, Microsoft, Intel, Apple, Philips, Compaq, JVC, Pioneer, etc.

Por ser um padrão de alta velocidade, o FireWire permitiu o surgimento de uma nova geração de equipamentos, como câmeras de vídeo digitais, unidades externas de disco, reprodutores de MP3, etc, que não seriam viáveis sem o FireWire. O mercado profissional também aproveitou as vantagens do novo padrão, principalmente nos sistemas de produção de áudio e vídeo (e a Apple chegou a receber um prêmio Emmy como reconhecimento pela contribuição do FireWire à indústria da televisão).

O padrão FireWire (IEEE-1394) é uma tecnologia de transmissão serial de alta velocidade para a conexão de dispositivos periféricos a um computador, sendo um dos padrões mais rápidos atualmente (veja quadro comparativo). E o novo FireWire 800 (IEEE-1394b) poderá operar com taxas de até 800 megabits/seg (Mbps), superando bastante o USB 2.0.


Quadro 1.1
FireWire USB 1.0 USB 2.0
Taxa de transferência (Mbps) 400 12 480
Máximo de dispositivos no barramento 63 127 127
Comprimento máximo do cabo (m) 4,5 30,0 4,5


Dentro de uma rede usando conexão FireWire, cada equipamento é chamado de "nó", e pode comunicar-se (transferir dados) com qualquer outro dentro da rede. Pode-se ter até 63 nós dentro de um mesmo barramento, sem a necessidade de se usar um "hub" (roteador de rede), e até 1.023 barramentos podem ser derivados de um nó. Em termos práticos, pode-se ter redes com até 72 metros de distância, desde que não se ultrapasse o número máximo de 16 equipamentos em cada barramento, e que a distância entre um equipamento e outro não ultrapasse 4,5m (Fig.1.1).

rede mLAN
Figura 1.1 - Possibilidades de conexão


Uma das características mais importantes do FireWire é que a conexão é do tipo "peer-to-peer", o que quer dizer que os múltiplos nós (computadores e periféricos) podem se comunicar independentemente entre si, sem a necessidade de um servidor específico. A conexão ou desconexão de um equipamento pode ser feita com o equipamento ligado ("hot swap"), sem necessidade de se inicializar o sistema, e o usuário também não precisa se preocupar com identificação de dispositivos, pois tudo é resolvido automaticamente entre os próprios equipamentos conectados. Dependendo do equipamento, a alimentação elétrica pode ser fornecida pelo próprio barramento FireWire.

Existem atualmente cabos de conexão FireWire de 4 e de 6 pinos (Fig.1.2), e o novo FireWire 800 utiliza cabo de 9 pinos. No cabo de 4 pinos, há dois pares de fios, um par para transmissão e outro para recepção de dados. Os dois fios de cada par são trançados entre si, dentro de uma blindagem, e o cabo ainda possui uma blindagem global, de forma que a possibilidade de distorção dos sinais por interferências externas é bastante minimizada. No cabo de 6 pinos (Fig.1.3), além dos dois pares e blindagem já descritos, há ainda mais dois fios que fornecem a alimentação elétrica aos equipamentos conectados (8 a 40V; 1.5A max). A transferência dos dados é feita por "transmissão diferencial", onde o sinal no fio A é sempre o inverso do sinal do fio B, o que possibilita ao equipamento receptor sempre determinar o estado lógico a partir da diferença entre ambos. Um recurso de proteção contra ruído similar à uma linha balanceada de áudio.

conectores Firewire
Figura 1.2 - Tipos de conectores FireWire



cabo Firewire
Figura 1.3 - Composição do cabo FireWire


Existem dois modos de transmissão através do FireWire. No modo assíncrono, os dados sempre chegam ao destino, pois mesmo que haja problemas na transmissão, eles são re-transmitidos. Por isso não é possível determinar o tempo que leva uma transmissão nesse modo, pois dependerá da ocupação do barramento. No modo isócrono, no entanto, o acesso ao barramento está sempre disponível para o equipamento por um determinado período de tempo, e permite que ele faça transmissões em tempo-real para transferência em "pacotes" de dados. Dessa forma, uma transmissão de vídeo ao vivo tem que usar o modo isócrono, para assegurar que cada quadro chegue no tempo correto. Por outro lado, a transferência de arquivos para um disco rígido pode ser efetuada usando o modo assíncrono. O FireWire pode reservar até 80% de sua banda para um ou mais canais em modo isócrono, sendo por isso um excelente interfaceamento para aplicações em tempo-real.


Um cabo, muitos canais

Os primeiros equipamentos de gravação de áudio baseados na tecnologia FireWire provavelmente foram as interfaces da MOTU (2408 e posteriores), que usam uma placa PCI interna ligada ao rack externo por um cabo FireWire, mas adotam um protocolo próprio (AudioWire). Alguns outros fabricantes também usam o FireWire como base para seus próprios protocolos, mas não há uma compatibilidade entre eles.

A partir de 2001 a MOTU lançou modelos de interfaces de áudio compatíveis com FireWire, que dispensam placas internas específicas para conexão. A interface 896, por exemplo, possui oito canais de entrada e oito de saída, conexões digitais S/PDIF e ADAT, sincronização wordclock, ADAT sync, etc. Ela é totalmente externa ao computador, ligada a este somente por um cabo FireWire, o que possibilita seu uso com notebooks. Através da conexão FireWire pode-se ter até quatro interfaces dessas, totalizando 32 canais digitais simultâneos de 24 bits a 96 kHz, e a MOTU disponibiliza drivers para Mac (ASIO) e PC/Windows (ASIO e WDM). Os computadores Macintosh já vêm com tomada para conexão FireWire, mas os PCs em geral requerem a instalação de uma placa específica, uma vez que a maioria das placas-mãe ainda não possui interface FireWire on-board.

MOTU 896
Figura 1.4 - Interface MOTU 896


A Glyph Technologies, empresa especializada em mídias para armazenamento de áudio digital, também oferece soluções baseadas na conexão FireWire. Com uma unidade de disco rígido da Glyph conectada ao computador, pode-se acoplar através dela até três interfaces de áudio MOTU, compondo um sistema de 24 canais com capacidade de armazenamento superior a 100 gigabytes.

Outro fabricante de "peso" que adotou o FireWire é a Digidesign, com a nova Digi-002. Ela é uma estação de trabalho integrada, que incorpora interface de áudio (oito canais de entrada e oito de saída simultâneos com conversores de 24 bits / 96 kHz), superfície de controle (oito faders motorizados) e software de gravação e edição (Pro Tools). Além disso, a Digi-002 possui também interface MIDI, entrada e saída digitais padrão ADAT óptico (oito canais) e S/PDIF (stereo), e pode ser usada tanto em Mac quanto em PC/Windows.

MOTU 896
Figura 1.5 - Digidesign Digi-002


E a tecnologia FireWire vem ganhando adesões até mesmo no segmento não profissional. A interface multimídia Sound Blaster Audigy 2, da Creative Labs, oferece a conexão SB1394/FireWire para a transferência de dados de áudio para gravadores digitais ou para conectar em rede vários computadores para jogos com múltiplos usuários.

Os exemplos apresentados acima mostram o quanto está se disseminando o uso do FireWire no setor de áudio digital, profissional ou não. Embora nos equipamentos aqui citados esta tecnologia esteja sendo usada apenas para transferência direta de áudio digital entre dois equipamentos (interface para computador, ou computador para interface), e mesmo não havendo uma compatibilidade mútua entre os dispositivos dos diferentes fabricantes, o crescimento da base instalada de FireWire certamente fará com que os custos desta tecnologia fiquem cada vez mais acessíveis.


Music Local Area Network - mLAN

Como já apresentamos antes, a conexão IEEE-1394 (FireWire) permite a transferência de dados em alta velocidade (até 800 Mbps, no padrão IEEE-1394b). Mais do que isso, usando essa tecnologia pode-se construir redes do tipo "peer-to-peer", onde não há necessidade de um servidor entre os equipamentos da rede. Mas a parte que mais interessa a nós, profissionais da área de música e áudio, é que o padrão IEEE-1394 permite a transferência de dados de áudio (e também de MIDI e de vídeo) em tempo-real. O maior passo para a aplicabilidade de todo esse potencial foi dado pela Yamaha, com a criação do protocolo mLAN.

A Yamaha já pesquisava uma forma de conexão de alta velocidade entre seus equipamentos de áudio digital desde o início da década de 1990, mas quando o protocolo FireWire tornou-se "aberto" através da especificação IEEE-1394, a empresa japonesa percebeu que aquela seria a melhor opção de interface a ser adotada. Em 1996, a Yamaha apresentou à 1394 Trade Association uma proposta de protocolo para a transferência de dados de áudio digital e de MIDI em cima do padrão IEEE-1394, à qual chamou de mLAN, ou Music Local Area Network. Em 1997 essa proposta transformou-se no "A/M Protocol" (Audio and Music Data Transmission Protocol), uma especificação que define a arquitetura de protocolo, com suas diversas "camadas", desde a base IEEE-1394 até as camadas do nível mais alto, onde são efetuados os gerenciamentos de conexão e roteamento, parte que é a grande "sacada" da mLAN. Os equipamentos e instrumentos dotados de interface mLAN podem ser conectados entre si, e a computadores que possuam interface padrão IEEE-1394/FireWire (com driver mLAN instalado), e uma vez conectados, pode-se construir uma rede eficiente para a transferência de áudio digital entre eles.

A Yamaha também produz chips para interfaceamento mLAN, que podem ser usados por fabricantes que desejam incorporar o protocolo em seus equipamentos. O chip mLAN-PH1 executa a transferência de dados de áudio digital através do barramento IEEE-1394, conforme a especificação do "A/M Protocol". A segunda geração de chips, o mLAN-PH2, será capaz de manipular 32 canais de entrada e 32 canais de saída com áudio em 24 bits, e até quatro chips poderão ser conectados em cascata, totalizando então 128 entradas e 128 saídas. Esses novos chips poderão também operar a 400 Mbps, possibilitando à rede trabalhar com cerca de 200 canais de áudio.


Brincando com fogo

Num ambiente convencional de equipamentos musicais existe uma variedade de tipos de cabos de áudio, de MIDI, de sincronização, etc, cada um para um tipo de aplicação e equipamento. Além disso, o fluxo dos sinais de áudio e de MIDI é determinado pela forma como os respectivos cabos estão conectados nos equipamentos, de forma que quando se deseja reconfigurar as ligações entre os equipamentos é necessário refazer as conexões físicas dos cabos entre eles. Quando um novo sintetizador é incorporado ao sistema, geralmente são necessárias mais duas conexões de MIDI e pelo menos mais duas conexões de áudio. Ao fazer as conexões, é necessário prestar atenção no sentido do sinal (in/out; out/in), e em alguns casos é preciso também tomar cuidado quanto aos níveis de sinal utilizados pelos equipamentos em suas conexões.

Em situações mais complexas, como em grandes estúdios e sistemas de sonorização de grande porte, os fatores citados acima acabam acarretando mais complicação (e maior possibilidade de erros) e, conseqüentemente, mais custos. E o tempo gasto para solucionar problemas de conexão também aumenta.

A solução proposta através da mLAN possibilita uma enorme simplificação, ao permitir que todas as conexões de um sistema sejam combinadas dentro de um único cabo de conexão IEEE-1394/FireWire, e ainda viabiliza a implementação de sistemas ainda mais poderosos.

Conexões convencionais
Figura 2.1 - Sistema com conexões convencionais de áudio e de MIDI


Conexões mLAN
Figura 2.2 - O mesmo sistema, formando uma rede mLAN com conexões IEEE-1394


Teoricamente, um barramento (cabo) IEEE-1394 de uma rede mLAN é capaz de transferir o equivalente a 100 canais de áudio digital com qualidade de CD e mais de 256 cabos de MIDI. Além disso, o fluxo dos dados de MIDI e de áudio digital dentro da mLAN pode ser modificado livremente, sem a necessidade de se refazer conexões de cabos, e todas as configurações podem ser memorizadas. A construção de uma rede mLAN com até 16 equipamentos é extremamente simples, bastando conectar um equipamento a outro, com cabos FireWire. Atualmente, o limite é de 63 equipamentos numa rede, mas no futuro será possível interligar em rede algo em torno de 60 mil equipamentos!


Quadro 2.1
Características do IEEE1394

  • Utiliza apenas um cabo para transferência de dados, sem distinção de entrada ou saída
  • Taxas de transferência de 100, 200, 400 e 800 Mbps; possibilidade de expansão a 1.6 Gbps
  • Conexão de até 63 equipamentos em um nó; possibilidade de expansão para 63x1023 nós
  • Conexões podem ser feitas com os equipamentos ligados
  • Tecnologia de domínio público; possibilidade de crescimento
  • O modo de transmissão isócrono permite a transferência de áudio em tempo-real
Características da mLAN

  • Taxa de transferência de 200 Mbps
  • Os equipamentos de áudio e os instrumentos musicais podem ser ligados em rede sem a necessidade de um computador
  • Os sinais de áudio podem ser roteados livremente, sem a necessidade de alteração física
  • Especificação em contínua atualização; suporta expansões


Pode-se conectar os componentes da rede de diversas formas ("topologias") diferentes, mas a mLAN sempre trata as configurações como sendo uma estrutura de árvore (Fig. 2.3), a partir da qual é escolhido automaticamente o equipamento mais adequado para ser o "cycle master", que gera o clock de sincronização da rede, essencial para que o sistema possa transferir dados de MIDI e áudio em tempo-real. Em geral o master é o equipamento que está na "raiz" das ramificações da rede, mas se o usuário quiser poderá ele próprio escolher quem deve ser o master. Se o equipamento master for desligado ou retirado da rede, um equipamento em outro nó será automaticamente escolhido para essa função. Não é permitido fazer conexões em loop, isto é, unir um ramo a outro por um segundo caminho.

Topologias
Figura 2.3 - Possíveis topologias de rede: os equipamentos mais adequados para a função de "master" são os da raiz ("root") da estrutura de árvore


Se um equipamento é conectado ou desconectado da rede, ou se ele é ligado ou desligado, o barramento ao qual ele está conectado é reinicializado, de forma a refazer a configuração da rede. Esse processo é chamado de "Bus Reset", e pode ser de dois tipos. Quando a alteração na rede não altera a sua topologia ou quando o equipamento master (raiz) não é retirado da rede, é feita uma reinicialização do tipo "Short Bus Reset". Mas quando a alteração na rede altera a topologia ou o equipamento master (raiz) é retirado, então é feita uma reinicialização do tipo "Long Bus Reset", quando é efetuada uma nova configuração dos nós, para poder determinar a nova raiz da estrutura, e quem será o novo equipamento master.


mLAN pelas janelas

A primeira pergunta que a maioria dos leitores vai fazer é sobre a compatibilidade do Windows com a tecnologia mLAN, pois o Mac já vem de fábrica com portas FireWire, o que não ocorre com a maioria dos PCs, que requerem a instalação de uma placa de expansão adicional. Como a tecnologia FireWire foi desenvolvida originalmente pela Apple, é natural que os computadores Macintosh suportem o padrão IEEE-1394 há muito mais tempo, e por isso os produtos com FireWire lançados no mercado sempre vêm primeiro com suporte para Mac. O mesmo tem acontecido com a mLAN.

Talvez por causa do vínculo original do FireWire com a Apple, a Microsoft vinha mantendo o Windows mais focado nos padrões USB e USB 2.0, mas com a adesão de tantas empresas ao padrão IEEE-1394, não houve como deixar de oferecer suporte nativo a essa tecnologia. O Windows ME e o Windows XP já aceitam dispositivos FireWire, sem a necessidade de qualquer "remendo" ao sistema operacional, bastando apenas instalar o driver específico do fabricante da placa FireWire. Já existem no mercado várias placas de expansão FireWire disponíveis para PC/Windows, e os grandes fabricantes de placas-mãe (ASUS, VIA, etc) também possuem opções com portas padrão IEEE-1394 já on-board.

Quanto aos equipamentos especificamente compatíveis com mLAN, a tendência também é haver suporte tanto para Mac quanto para Windows. Embora a primeira interface mLAN da Yamaha (mLAN8P) até o momento só tenha drivers para Mac, o PreSonus FIREstation e a Yamaha O1X já são compatíveis com ambas as plataformas.


Detalhes (mais) técnicos

Os fluxos de dados de áudio e de MIDI na rede mLAN (passando pelo cabo FireWire), são efetuados através de conexões virtuais chamadas de "mLAN Plugs", e o roteamento desses plugs é chamado de "mLAN Connections".

Conexões virtuais
Figura 2.4 - Concepção da conexão virtual


O gerenciamento das conexões é uma função processada em todos os equipamentos da rede mLAN. Dessa forma, é permitido a um equipamento criar "mLAN Connections" nos "mLAN Plugs" de outros equipamentos, bem como solicitar aos demais equipamentos informações sobre suas conexões. Além disso, como já foi mencionado antes, é possível restaurar todas as conexões após um Bus Reset, pois elas ficam memorizadas nos equipamentos receptores, que procuram na rede os transmissores que estavam ligados anteriormente a eles.

Como já vimos no artigo anterior, a transferência dos dados no padrão IEEE-1394 possui um modo de transmissão chamado de isócrono, que garante ao equipamento o direito de usar a rede para transmitir dados a cada 125 microsegundos, possibilitando a transferência em tempo-real. O equipamento master (raiz), além de fornecer o clock da rede também é o responsável pelo processo de arbitragem do uso do barramento. Quando um equipamento precisa transmitir dados, ele requisita ao nó a que está associado, e este aos demais nós acima, até chegar ao equipamento master, na raiz. Este então decide qual dos equipamentos pode transmitir e envia uma confirmação para ele, dentro da disponibilidade do modo isócrono, informando que pode usar o barramento e transmitir seus dados. Obviamente, esse processo de requisição/confirmação acaba ocupando algum tempo de operação do barramento, e reduz um pouco a banda da rede.

A transferência de dados é feita em pacotes, que não podem ocupar o barramento por mais de 125 µs (na porção isócrona). Dessa forma, tendo sido autorizado a usar a rede, o transmissor monta seus pacotes de dados e coloca-os dentro de cada ciclo isócrono (Fig.2.5). Observando o diagrama de tempo, é importante atentar para o fato de que a taxa de transmissão da rede (cerca de 200 Mbps) é significativamente maior do que a taxa de amostragem do equipamento transmissor (digamos, 48 kHz). O atraso máximo possível entre a transmissão e a recepção seria da ordem de 2 ciclos isócronos, isto é, 352 µs, já considerando as perdas com a arbitragem de transmissão.

Temporizações
Figura 2.5 - Diagrama de temporização da transferência de dados da rede mLAN



Podemos agora avaliar a capacidade de transmissão em tempo-real da rede mLAN. Considerando a taxa de transferência de 200 Mbps, e assumindo que em quase 80% do tempo o barramento está disponível para transmissão em modo isócrono, temos então a possibilidade de transferir cerca de 2400 bytes a cada ciclo isócrono de 125 µs. Se a taxa de amostragem do áudio digital for 48 kHz, pode-se empacotar seis amostras de áudio em cada ciclo isócrono, cada uma delas representada em 32 bits (4 bytes), totalizando assim 24 bytes. Mas como temos 2400 bytes disponíveis, podemos então ter 2400/24 = 100 canais de áudio sendo transferidos em tempo-real. Na prática, a capacidade será um pouco menor, devido à perda de tempo com bytes de cabeçalho e outros dados auxiliares que ocupam o ciclo isócrono.


Quem já entrou no jogo

Obviamente, a Yamaha, mentora da tecnologia, foi a pioneira em produtos compatíveis com mLAN, produzindo interfaces para seus equipamentos de linha. A interface CD8mLAN pode ser instalada nas mesas digitais série O, e é capaz de manipular oito canais de áudio (uma limitação do slot de expansão dessas mesas). Numa O2R, no entanto, pode-se instalar até quatro CD8mLAN, permitindo à mesa trabalhar com 32 canais na rede mLAN. A outra interface da Yamaha é a mLAN8E, que pode ser instalada em alguns de seus sintetizadores (S80, CS6X, A5000, etc) permitindo assim a sua conexão de áudio e MIDI à rede mLAN. Para equipamentos e instrumentos que não possuem slot de expansão, a Yamaha oferece a mLAN8P, uma "caixa de conexões" extremamente poderosa, com 2 entradas e 2 saídas analógicas de áudio, entradas e saídas stereo digitais S/PDIF coaxiais e ópticas, e mais 1 MIDI In e 2 MIDI Out. A mLAN8P pode ser conectada diretamente a um computador que tenha tomada FireWire, e possui um mixer digital (pode ser controlado pelo painel da interface ou por software) com 12 canais e processamento de efeitos similar à O3D.

01X
Figura 2.6 - Yamaha O1X


O mais novo produto da Yamaha é o 01X, uma estação de trabalho integrada que funciona como interface de áudio para computador (oito canais simultâneos de entrada e saída) e superfície de controle (faders motorizados). Ele possui capacidade de mixagem e processamento digitais e pode ser conectado a computadores Mac ou PC/Windows. É compatível com a maioria dos softwares de gravação (Cubase SX, Nuendo, Sonar, Logic Audio, Digital Performer, etc), já vem com plug-ins VST, e dispõe de drivers ASIO, WDM e Mac OSX Core Audio.

Alguns outros fabricantes também já estão oferecendo produtos ou interfaces compatíveis com mLAN. A Korg possui uma interface opcional para o Triton, a EXB-mLAN, que pode ser instalada no slot de expansão daquele teclado para colocá-lo na rede. Da mesma forma, a Kurzweil possui a interface KMLN8 para o processador KSP8, e a Apogee tem uma interface mLAN para seus equipamentos Trak2 e AD-8000. A PreSonus lançou recentemente o FIREstation, um preamp que também funciona como interface de áudio e de MIDI, através da porta FireWire, compatível com mLAN.

PreSonus Firestation
Figura 2.7 - PreSonus FIREstation


Como podemos ver, tudo indica que o protocolo mLAN veio para ficar e, considerando a quantidade de equipamentos compatíveis que já estão no mercado, a disseminação desta nova tecnologia nos estúdios do mundo inteiro acontecerá em pouco tempo. Pode vir a ser uma mudança tão revolucionária quanto foi a introdução do MIDI, há mais de duas décadas atrás. É esperar para confirmar.


Fontes de consulta:

"An Introduction to mLAN", Paul Wiffen (Sound On Sound; 2000)
"Audio and Music Data Transmission Protocol v.1.0" (1394 Trade Association; 1997)
"FireWire 800" (Apple Computer; 2003)
"mLAN Guide Book" (Yamaha Corporation; 2000)
"On IEEE-1394", A. Jain, P.Kohlbecher, B.Liebald (IU Bremen; 2002)
"The Northwest CyberArtists Journal" (Miller Freeman; 1994)

Sites de referência:

1394 Trade Association
Apple Computers
Yamaha Corp


Texto publicado na revista Música & Tecnologia em 2003

Este artigo foi publicado no music-center.com.br em 2005


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