Instrumentos musicais e tecnologia digital
Uma visão histórica e os benefícios de um casamento que deu certo

por Miguel Ratton


Uma enorme polêmica existe em relação ao uso de computadores e sintetizadores para se fazer e tocar música: algumas pessoas são extremamente radicais e se opõem ferreamente (devem ter lá suas razões) à utilização de "bits e bytes" dentro das partituras, enquanto que outros - incluindo muitos músicos eruditos - são simpáticos às novas idéias, e tratam de se aproveitar das novas ferramentas, como forma de somar recursos para sua atividade-fim, que é a música.

sintetizador digital O objetivo do texto a seguir é, em primeiro lugar, recapitular quantas coisas aconteceram em poucos anos de uso efetivo de eletrônica na música e, em seguida, mostrar as incontestáveis vantagens que nós, usuários dessas máquinas maravilhosas, passamos a ter com tudo isso, e o que podemos esperar para o futuro.

Desde o começo, os instrumentos musicais usufruíram dos recursos tecnológicos disponíveis. Mesmo nos tempos antigos, quando a tecnologia era primitiva, confeccionar bons instrumentos já dependia de ferramentas e materiais de alto nível. Os luthiers e artesãos dedicados à fabricação de instrumentos musicais sempre foram considerados profissionais especializados, altamente qualificados e, por isso, muitíssimo respeitados.

De algumas décadas para cá, assim como aconteceu em outros setores, a indústria musical passou a se utilizar maciçamente dos recursos de alta tecnologia, mais precisamente dispositivos eletrônicos. Essa conjugação teve várias conseqüências muito importantes para a evolução não só dos próprios instrumentos - qualidade, preço, etc - mas também da música como um todo (novos estilos, comportamentos, etc).

O uso da eletrônica na música começou primeiramente como forma de se amplificar sons. Posteriormente foram se desenvolvendo novos dispositivos que possibilitavam a gravação e a reprodução. Paralelamente - aproveitando-se a mesma tecnologia - aconteciam experiências na geração de sons, usando-se osciladores eletrônicos. Os recursos ainda eram muito rudimentares, mas a semente já estava lançada.


Dó, ré, mi, 10010110, 10110100, 11010101...

Decorreram-se apenas algumas décadas desde o início da era eletrônica até começar a era dos computadores. Mas a transição foi brutal, principalmente quando surgiram os microcomputadores, e o "cérebro eletrônico" deixou de ser personagem de filme de ficção científica e entrou nos escritórios, nas indústrias, nos lares e - por que não? - nos estúdios, passando a ter uma importância fundamental para seus usuários. Se você utiliza o computador no seu trabalho, então responda: poderia viver sem ele? Provavelmente sim; da mesma forma que também poderia viver sem água encanada, sem luz elétrica, sem televisão... mas a sua vida seria muito pior, não seria?

Pois bem, voltando ao ponto que nos interessa: no final da década de 70 a indústria musical começou a sofrer (sofrer ou se beneficiar?) uma mudança bastante radical: empresas pequenas, novas e desconhecidas no cenário da música, apareceram com máquinas que realmente impressionavam. Eram elas: E-mu Systems, Sequential Circuits, Polyfusion, New England Digital, Oberheim, Fairlight, Synergy e algumas outras. Os nomes nem de longe sugerem algum vínculo com a música, mas por trás havia um seleto grupo de engenheiros e técnicos com duas coisas em comum: o gosto pela música e o conhecimento da tecnologia digital.

Algumas fábricas de sintetizadores que tinham uma boa reputação - e sucesso - no começo dos anos 70, como a ARP e a Moog, sucumbiram frente à "nova onda" que surgia. Em grande parte pelo fato de não terem conseguido acompanhar o passo da evolução, ou até mesmo por não terem vislumbrado a tempo o começo da nova era, e acabaram por amargar dias cada vez mais difíceis, até fecharem as portas definitivamente (com a onda "retrô", muitas pessoas têm ressuscitado alguns desses instrumentos, ultimamente).

O ponto-chave para a ascensão daquelas novas empresas foi o seu domínio sobre a tecnologia digital. Embora (aparentemente) nada tivessem a ver com música, o conhecimento que possuíam na área de informática era suficiente para transformar sons em processos computacionais, e a partir daí obter resultados bastante aceitáveis. Ainda que a tecnologia digital daquela época não fosse das melhores para os padrões atuais, o potencial de vantagens era muito promissor. Isso encorajou outras pessoas e empresas a entrar na "onda", assim como também sacudiu alguns fabricantes bem-estabelecidos, como a Yamaha e a (àquela época, ainda jovem) Roland, que logo trataram de acelerar suas pesquisas no assunto. Embora várias das fábricas pequenas tenham fechado após alguns anos, grande parte de seu material humano foi aproveitado pelas que sobreviveram ou pelas mais novas que vieram depois.

O resultado dessa "corrida" foi um surto fantástico de desenvolvimento de instrumentos musicais eletrônicos - principalmente sintetizadores - que produziram alguns resultados fabulosos. Vejamos algumas máquinas marcantes:


Esses são apenas alguns exemplos. Se você folhear as revistas americanas de música da época, encontrará anúncios de diversos outros instrumentos de que nunca ouviu falar, mas que tiveram seu valor na evolução dos sintetizadores.

Os benefícios diretos

Uma das maiores vantagens que os instrumentos digitais (ou híbridos) trouxeram para os músicos foi a estabilidade da afinação. Os sintetizadores analógicos sofriam de um mal intrínseco à circuitaria que usavam, que era a dificuldade de permanecer afinado frente a variações de temperatura do ambiente. Isso era o terror dos projetistas. Para se ter uma idéia do problema que isso representava, basta ver os catálogos originais do Minimoog e do ARP 2600, onde o termo "estabilidade" merece destaque nas especificações técnicas. Com os circuitos digitais, a precisão e a estabilidade deixaram de ser um problema (alguém se preocupa com isso hoje?), uma vez que os instrumentos passaram a usar osciladores controlados por quartzo.

À medida que foram sendo usados mais e mais circuitos digitais dentro dos sintetizadores, e posteriormente microprocessadores, outras facilidades foram sendo incorporadas. Uma delas foi o sistema de comunicação MIDI, que talvez tenha propiciado a maior revolução nos processos de composição e execução de música, desde que Guido d’Arezzo criou o sistema de notação em pauta, por volta do século X.

Não cabe aqui entrar em detalhes sobre MIDI, mas vale a pena destacar as vantagens que ele trouxe: controle, controle, controle... Com o MIDI, o músico passou a poder controlar cada vez mais instrumentos, e não só isso: passou a controlar e a manipular sua música com rapidez e precisão. Diversos recursos surgiram como conseqüência do MIDI: softwares musicais de todo o tipo, intercambialidade musical (General MIDI, Standard MIDI File) e uma aproximação maior entre os fabricantes, pois usam o mesmo padrão (no setor de samplers, por exemplo, é cada vez maior a compatibilidade entre equipamentos, quanto à utilização de amostras). O MIDI propiciou até mesmo o surgimento de "instrumentistas do mouse", compositores antes incapazes de fazer música usando as ferramentas convencionais (instrumentos acústicos) que passaram a extravasar sua sensibilidade musical através de softwares no computador, controlando sintetizadores via MIDI.

O uso de microprocessadores dentro dos instrumentos também viabilizou a implementação de sintetizadores polifônicos, onde as vozes (polifonia) são alocadas eficientemente para que as diversas notas possam ser executadas (outro enorme problema nos sintetizadores analógicos). E a capacidade polifônica vem crescendo a cada ano (64 vozes é o padrão atual). Adicione-se a isso a capacidade de detectar a intensidade com que uma nota é executada pelo músico ("key velocity"), e então poder aplicá-la de diferentes formas no som produzido (além de transmitir essa informação para outros instrumentos, via MIDI).

À medida que chips microprocessadores mais avançados foram surgindo, mais funções foram sendo incluídas nos sintetizadores, ampliando sua capacidade ainda mais. O processamento digital de sinais (DSP) permitiu não só aprimorar a qualidade sonora dos timbres, como também incorporar ao instrumento módulos de efeitos (reverb, chorus, etc).

Surgiram então os sintetizadores multitimbrais, capazes de executar vários timbres simultâneos, e multiplicando a eficiência do equipamento, que se tornava capaz de acumular as funções de baixo, bateria, piano, base, pad, solo, etc, etc. Tudo muito bem gerenciado pelo microprocessador. Depois vieram as workstations (Korg M1 e similares), instrumentos que integram sintetizador (teclado e gerador de timbres multitimbral), processador de efeitos e seqüenciador MIDI.

Nessa altura dos acontecimentos, a tecnologia digital de 16 bits se estabeleceu e foi atingido um nível de qualidade sonora extremamente alto. Os timbres dos sintetizadores passaram a ter uma perfeição e uma clareza tão grandes, que até mesmo tecladistas acústicos "de carteirinha" se deixaram vencer pela eletrônica, pois apesar de ainda ter limitações sonoras (principalmente em termos de expressividade) é muito melhor usar um piano digital, quando a outra alternativa é um piano acústico com problemas afinação, captado por microfones ruins.

A evolução da tecnologia de memórias digitais vem pondo no mercado chips com capacidade de armazenamento cada vez maior. Isso permitiu aos fabricantes colocarem mais e mais timbres dentro dos sintetizadores, o que passou a ser um enorme valor agregado aos instrumentos. Só para citar um exemplo verdadeiro: o Roland JV-1080 vem de fábrica com 640 timbres (sem contar as baterias/percussões), e você pode adicionar um card e mais quatro placas de expansão, o que pode chegar a um total de mais de 1.200 timbres em um único equipamento! (haja música para usar isso tudo). No passado recente, tecladistas como Rick Wakeman precisavam levar uma dezena de teclados para o palco, para que pudessem ter disponibilidade imediata de diferentes timbres. Hoje, basta pressionar um botão.

Esse aumento na capacidade de armazenamento trouxe também um outro grande benefício direto para o músico, que não precisa mais perder tempo programando o sintetizador. Com uma quantidade tão grande de timbres, dificilmente será necessário programar um novo, já que na memória do sintetizador já terá praticamente tudo o que deseja. Se não tiver, o músico pode adquirir outros timbres de empresas especializadas, vendidos em disquete, card, CD-ROM ou via Internet. Outra vantagem conseqüente da capacidade de memória é que o instrumento, por conter uma enorme variedade de timbres, torna-se cada vez mais versátil, e podendo ser usado em qualquer tipo de música.


Benefícios indiretos

Além de tudo o que já falamos até agora, existem ainda outros aspectos relevantes. À medida que os computadores foram se tornando objetos de uso quase obrigatório no dia-a-dia das pessoas, seus componentes foram se tornando mais padronizados e mais comuns. Dessa forma, com os instrumentos musicais se "computadorizando" cada vez mais, os fabricantes do setor musical foram procurando aproveitar não só a tecnologia disponível, mas também os próprios componentes comerciais e dispositivos já existentes no mercado.

Vejamos alguns exemplos desse aproveitamento positivo do que já existe no mercado de informática: praticamente todo sintetizador que possui unidade (drive) de disquete, utiliza disquetes de 3.5" e formatação compatível com o sistema operacional MS-DOS (o dos computadores PC); diversos instrumentos podem ter sua memória expandida, e para isso utilizam plaquetas de memória SIMM, também usados em "motherboards" de computadores comuns; alguns instrumentos utilizam cards do padrão PCMCIA, usados em computadores portáteis (notebooks); vários samplers e equipamentos de gravação de áudio podem acoplar unidades de armazenamento do tipo SCSI (discos rígidos, unidades de CD-ROM, unidades magneto-ópticas), também de fácil obtenção no mercado.

Uma conseqüência imediata desse aproveitamento industrial é não só a redução de custos de projeto e de fabricação (o que faz o instrumento chegar ao músico com um preço mais baixo), mas também a maior facilidade de manutenção, pois os componentes deixam de ser exclusivos e proprietários, podendo ser encontrados com mais facilidade.

Embora não seja uma prática comum da indústria de instrumentos, a tecnologia digital permite que um equipamento seja "atualizado", pela simples substituição do seu software de controle. Em alguns casos, o usuário pode adquirir (às vezes até recebe gratuitamente) do fabricante uma nova versão do software de controle, substituindo o chip interno de memória EPROM ou o disquete de partida do equipamento. A indústria de softwares musicais adota essa política desde muitos anos, o que aliás é uma forma muito inteligente de manter o cliente.

Mas não são só os sintetizadores que estão se aproximando dos computadores, pois o inverso também já ocorre. Com os computadores "multimídia", pode-se dispor de recursos de geração de som num computador comum. É bem verdade que o sintetizador OPL-3 que existe nas "soundblasters" da vida não se compara de longe a um instrumento "de verdade", mas é só uma questão de tempo. Já existem placas de som para computadores que vêm com chips sintetizadores de sonoridade bastante razoável, a um preço demasiadamente baixo, se comparado com um instrumento musical. Alguns desses sintetizadores permitem ao usuário carregar novos timbres; existem até placas de som que são verdadeiros samplers (SampleCell).

Por outro lado, à medida que o poder de processamento dos computadores aumenta, os softwares podem fazer mais coisas. E assim começam a surgir os "software synthesizers", como o CyberSound VS, da InVision. Isso poderá tornar os sintetizadores mais computadores, e vice-versa. De preferência com as vantagens de cada um, é claro. Imagine então um músico falando com outro: "Já fiz upgrade para a nova versão 2.0 do Korg X600dx-4, pagando uma taxa de $100." E o outro responde: "É, eu já tenho também. Agora a polifonia é de 512 vozes, e ele também já pode usar os timbres do Emulator 200."


Pagando menos por mais

Não poderíamos deixar de falar do aspecto econômico associado à evolução dos instrumentos musicais eletrônicos. É bastante interessante mostrarmos alguns fatos, sob o ponto-de-vista de custo/benefício.

Em 1980, o Minimoog custava US$ 1995. Era um instrumento monofônico, não memorizava timbres (tinham que ser programados por botões no painel), seu teclado não tinha sensibilidade, e ainda sofria dos problemas de estabilidade da afinação. Os sons que produzia - embora sensacionais - eram puramente sintéticos, isto é, era impossível tocar um som parecido com piano acústico, com sax, etc.

Em 1996, é possível adquirir por pouco mais de US$ 1000 um sintetizador multitimbral (16 partes), polifônico (64 vozes), com um teclado mais longo e com sensibilidade a key velocity e aftertouch, com mais de 640 timbres na memória (vários sintéticos, vários de instrumentos acústicos), possibilidade de expansão, processador de efeitos embutido, MIDI, etc, etc.

Isso só foi possível graças à redução de custos da tecnologia digital, que passou a ser a matéria-prima fundamental dos instrumentos modernos.

Só a título de comparação: quanto custava um piano acústico no começo do século? É bem possível que esse mesmo tipo de piano custe mais caro hoje, apesar de já se terem passado quase cem anos. Isso porque a matéria-prima (madeira) ficou mais escassa e sua exploração ecologicamente proibitiva (teclas de marfim, nem pensar).




O que nos espera no futuro

Uma vez que os instrumentos musicais modernos estão intimamente ligados à tecnologia dos computadores, não é tão difícil imaginar o que poderá vir nos próximos anos. Basta acompanhar as previsões dos especialistas da área de informática, e transportar para o nosso meio aquilo que podemos aplicar.

O aumento impressionante da capacidade de processamento dos chips será um fator cada vez mais preponderante daqui para a frente, o que ajudará aos sintetizadores terem um aumento crescente de recursos. A maioria dos instrumentos provavelmente terá uma polifonia superior a uma centena de vozes nos próximos três anos. Da mesma forma, a capacidade multitimbral também será ampliada. Os recursos de síntese serão aprimorados ainda mais, e surgirão novos processos, como a adoção de técnicas de modelagem física para melhor controlabilidade do som. Com o barateamento das memórias digitais e outras mídias de armazenamento, certamente os sintetizadores terão uma capacidade ainda maior de memorização de timbres. O disquete será substituído por discos ópticos.

Os instrumentos musicais terão cada vez mais afinidade com os computadores, compartilhando cada vez mais componentes e dispositivos do que hoje. Por que não ter um barramento PCI dentro do sintetizador, para inserir uma placa de vídeo ou uma controladora SCSI comum do mercado? Isso dará maior expansibilidade ao equipamento. Além disso, a padronização cada vez maior poderá propiciar a intercambialidade entre equipamentos de fabricantes diferentes, até porque cada vez mais vêm sendo usados os mesmos dispositivos disponíveis no mercado.

Apesar dessas especulações, não tenho a menor intenção de profetizar qualquer coisa, mas apenas raciocinar em cima de fatos presentes e tendências mais evidentes. Mas uma coisa eu tenho como certa: qualquer que seja a velocidade dos acontecimentos, o usuário sempre terá vantagens.


Texto publicado na revista Música & Tecnologia no.63 em nov/96

Este artigo foi publicado no music-center.com.br em 1998


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